De Lua
Falsos Muros

Abordando um pouco de tudo e um pouco de nada…

As minhas divagações sobre os muros começaram terça, após uma conversa, basicamente, entre (futuros ou já formados) antropólogos, sociólogos e biólogos (se me lembro bem).

Nós, futuros biólogos, somos mais observadores. Eles, estudantes ou já cientistas sociais, gostam de embates. Mas nos entendemos bem, até.

Primeiro falso muro: a faculdade. A ciência exata e a ciência humana. A análise sistemática e a análise social, psicológica. Mas todos classificamos, separamos, julgamos. Construimos nossos próprios muros e acreditamos que um lado deve ser isolado do outro e que, juntos, eles não poderiam existir. Limitamos o que não é limitável e, em seguida, procuramos respostas para as consequências dessa limitação.

Estávamos em grupo de, mais ou menos, 20 pessoas; tentando esburacar nossos próprios muros e transitar de um lado para o outro. O que, por si só, já merecia um post inteiro. O encontro foi motivado para relembrar a queima do relógio comemorativo dos 500 anos do Brasil, instalado pela RBS, há 10 anos atrás, porém, como sempre, ele foi muito mais longe do que meramente relembrar o feito.

Falso muro: o antes e o depois da chegada dos portugueses no Brasil. É como se esquecessemos que, antes das grandes caravelas ancorarem em nossa costa, havia um povo aqui e, quando lembramos, esquecemos que esse povo AINDA está aqui.

E muito mais perto de nossa sociedade “civilizada” do que muitos de nós sabe. No caso dos estudantes da UFRGS, que tem aulas no Campus do Vale, pode-se dizer que dividimos o mesmo morro com eles. Porém, criamos muros bastante consistentes e não vemos além do anel viário da UFRGS. O máximo de contato que temos com a sociedade que, literalmente, nos cerca, é esperar o mesmo ônibus no terminal, que é o limiar entre a UFRGS e a “vila” (bairro Santa Isabel, Viamão). Ainda assim, somos aconselhados, ao ingressar na Universidade, a não andarmos sozinhos, não permanecermos no campi a noite e etc., pois é muito perigoso. As poucas iniciativas que existem para conhecer o local onde estamos inseridos são barradas pois há “conflitos com os kaingangs” e os guardas não liberaram a subida(há dois semestres não é realizada a tradicional subida ao morro dos estudantes de biologia… não foi por falta de vontade, iniciativa e tentativas).

Aaaah, mas para tudo há uma solução! Que tal meter um muro de 3 metros e meio de altura entre o que é UFRGS e o que não é?!? Sim! Ótima idéia! Por que quem precisa se alimentar e acha que assaltar é o único jeito de conseguir esse dinheiro NÃO VAI pular o muro… Por que os kaingangs que fiquem lá com seu matinho e seus cipós, mas não dentro do nosso mato, né? Vá lá, que o graxaim-do-mato, a preá e tantos outros animaizinhos desses que se virem se o muro afetar sua área de distribuição. O pessoal da biologia que suba o morro até onde lhe é permitido! Afinal, o que os estudantes, funcionários e professores da UFRGS tem a ver com isso? Nossa única responsabilidade é ir para a faculdade e ter segurança ao fazer isso. Só.

Incrível como muros concretos conseguem ser mais falsos que as barreiras ideológicas, históricas, sociais… Podemos até explodir, esburacar ou pular o tal muro (e tantos outros muros), mas as barreiras que nos foram impostas continuarão ali e poucos de nós conseguirão transcendê-las.

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